Estava preocupado com a tendinite no pulso do S. que não se mostrava com muita vontade de tocar uma música particularmente exigente para o pulso. Estava mais preocupado ainda com a minha infecção na garganta e na forma como isso ia influenciar o concerto. A espera, no local do concerto ainda vazio, arrasa os nervos. As dores na garganta começavam a piorar significativamente. Chega a hora anunciado do concerto e o sítio continua vazio. Espera-se. Passam algumas pessoas na rua com um ligeiríssimo interesse no que se vai passar lá dentro mas o preço da entrada acaba com ele. Os próximos minutos são de nervos que turvam o pensamento e não deixam discernir. Terão passado 10 minutos? 30? 60? 10000? De repente, olho à minha volta e vejo que a sala já está mais ou menos composta. À medida que vão entrando pessoas que nunca vi na vida, os nervos começam a passar. Uma confiança inabalável proporcionada pela certeza de sermos bons naquilo que fazemos, começa a inundar-me. Começo a dizer a toda a gente que vamos começar. Não posso esperar mais. Lembro-me, por breves instantes da minha garganta mas agora preocupa-me mais o pulso do S. Olho por cima do ombro direito e vejo-o a pegar na Danelectro preta com uma calma de quem já não sente dor. "Muito bem! Eu esqueço a minha garganta e tu esqueces o teu pulso!" - penso. Sinto o braço da minha guitarra e a aspereza das cordas, olho em frente e só vejo gente a olhar para nós. Óptimo! Breves instantes de silêncio e o M. solta as primeiras notas no baixo.
A partir daí lembro-me de pouco mas lembro-me, essencialmente, de me sentir bem. De sentir relâmpagos de energia a saírem de mim. De sentir que estava a fazer aquilo de que mais gosto e aquilo que faço melhor. De sentir o gozo de ver gente a mexer-se ao som de músicas que fiz numa guitarra acústica no banco de trás do carro, estacionado num beco qualquer, ou sentado na borda da minha cama numa noite de insónia. De facto, uma música não vale nada até alguém a ouvir. Já não havia pulso nem garganta que parassem a ânsia de mostrarmos, música após música, aquilo que valemos. Que se lixe a modéstia! Somos bons! No meio da descarga energética de uma música, chegamos mesmo a ser os melhores.
Em cada concerto e mais ou menos assim. A coisa repete-se e é, ao mesmo tempo, sempre nova.
0 comentários:
Enviar um comentário