Aqui têm, a propósito do Halloween, uma música nova do Springsteen com aquele que já é para mim, um dos melhores vídeoclips que alguma vez vi. Absolutamente perfeito. Para ouvir bem alto, como é suposto ouvir sempre os blues!
A night with the Jersey Devil
Bruce Springsteen / Robert Jones / Gene Vincent
Hear me now! I was born 13th child, 'neath the 13th moon Spit out hungry and born anew Daddy drag me to the river tie me in rocks Throw me in where it's deep and wide I go down, I don't die Hole in the river bottom, I crawl through Come back kill six brothers and sisters, kill papa too Sway down Mama, sway down low They gonna know me wherever I go
Into my bed with her kerosene my mama creep Set my flesh to burning, whilst I sleep I burn, burn, burn, till my soul burn black Black rains fall, I come back, I come back Get down Mama, get down low They gonna know me wherever I go
16 witches, cast 16 spells Make me guitar outta skin and human skull Sing you a song like the wind in the sandy loam Bring you baby out'cha your happy home
Ram's head, forked tail, clove hoof, love's my trail I sup on your body, sip on your blood like wine Out world theirs, this world mine So kiss me baby till it hurts God lost in heaven, we lost on earth Sway down Mama, sway down low They gonna know me wherever I go Wherever I go, wherever I go
Well I got a brand new lover I love her yes I do, She's my one and only and her name is Baby Blue...
Point blank - A obra-prima do álbum. Não é perfeita porque a versão que aqui ponho é a versão definitiva desta música. O título foi roubado a um filme do film noir que Springsteen via frequentemente. A própria música também parece film noir, estilizada, sombria, violenta, sem esperança e com um dos melhores finais de sempre: "bang bang baby you're dead". De resto, só ouvindo, com a letra à mão.
Cadillac ranch - Continua a aumentar a lista de músicas feitas especificamente para concertos. Esta é das mais duradouras, talvez por ter uma sonoridade muito Country Rock que se adapta bem a outro tipo de reportório. A letra parece lá estar só a marcar presença mas não deixa de ser uma música divertida.
I'm a rocker - Fun! Fun! Fun! Qualquer música que começa com "I got a 007 watch and it's a one and only" não tem pretensões a ser a melhor música de sempre. Nomeia todo o tipo de agentes da autoridade cool da televisão e cinema. Riff de garage com um traço pop e siga para a frente aos saltos e aos berros! Juntamente com "Crush on you" e "Serry Darling", a melhor party song de um álbum cheio delas.
Fade away - Depois, de repente, o som festivo das teclas transforma-se em solitário e depressivo uivo e começa Fade away. Uma música sobre dor de corno. Líricamente tem muito de adolescente do tipo "gosto muito de ti, não me deixes" e isso faz com que seja dificil de acreditar na mensagem. Afinal de contas, é possivel desparecer por uma paixão adolescente? Ainda assim, instrumentalmente, a música aguenta-se e confere um tom mais sóbrio à letra. No entanto, Fade away não é mais do que aquecimento para a música seguinte.
Stolen car - Ouvir esta música é como levar uma pancada em cheio no peito e ficar sem respiração. É, juntamente com a semelhante "Shut out the light" uma das músicas mais desoladoras e solitárias de Springsteen. É que, desta vez, com os parcos arranjos e a força da voz, nós acreditamos mesmo nas palavras da música: "But I ride by night and I travel in fear / That in this darkness I will disappear". Uma das mais potentes músicas de sempre feita ao velho estilo e na velha tradição country que sempre soube fazer este tipo de músicas de desespero. Foi editada uma outra versão no caixa quádrupla "Tracks" que ganha com uma letra mais extensa (foi um crime deixar de fora aquelas partes da letra) mas que talvez perca um pouco em intensidade por utilizar mais instrumentos. Um dia prefiro uma, no dia seguinte prefiro a outra. A ouvir ambas e esta que aqui fica é uma terceira, ao vivo.
Ramrod - Ramrod é metáfora para sexo. Uma música que acaba com a frase "Give me the word now sugar and we'll go ramrodding forever more" dificilmente pode ser encaixada na categoria das músicas mais profundas deste álbum. Esta é, de facto, a última das party songs do álbum e não é tão má como, por exemplo Cadillac Ranch mas também não é tão boa como Sherry Darling. Isto no álbum porque ao vivo a coisa muda de figura. Esta música tem aparecido de forma mais ou menos consistente nas últimas digressões com a E-Street Band em versão melhorada e alongada. Fica aqui em cima um exemplo dessa versão (ao vivo, em Barcelona).
The price you pay - Este era o tipo de música que Springsteen queria ter feito com "Fade away". Talvez tenha transparecido que eu não sou grande fã da música mas, muito pelo contrário, acho que é uma grande música, só acho que podería ser melhor. E digo-o baseado, por exemplo, em músicas como "The price you pay". A sonoridade é a sonoridade clássica do "The River" mas a música dá voltas que não conseguimos estar à espera e a letra é de uma profundidade e complexidade que não é nada comum no trabalho de Springsteen. Normalmente Springsteen conta histórias de forma aparentemente simples e é nisso que ele é melhor. Aqui arriscou por outros caminhos e deu-se bem. Talvez nao tenha sido essa, no entanto, a opinião do próprio até porque raramente a tocou ao vivo. De qualquer das formas é uma das minhas preferidas. Aconselho vivamente a leitura da letra.
Drive all night - Na digressão de promoção de "Darkness on the edge of town", no meio da música Backstreets, Springsteen cantava/falava de improviso um dos mais belos pedaços de música que conheço (o vídeo é um exemplo disso). Na altura era conhecido como "Sad eyes" por ser uma das frases recorrentes e construía-se num crescendo alucinante até ao derradeiro e libertador final, um pouco de silêncio e voltava a ouvir-se o refrão de Backtreets. Essa espécie de interlúdio, transformou-se nesta música e isso custou-lhe a vida. Aquilo que não é (de todo!) uma música má, transformou-se numa música mal-amada pelos fãs de Springsteen precisamente porque o que queriam era a força de "Sad Eyes" e não a calmia soul (a fazer lembrar Van Morrison) de Drive all night. Há, depois, a eterna e grande questão que divide fãs do Springsteen em todo o mundo que é a linha "I'll drive all night just to buy you some shoes". Há quem diga que é oca e despropositada, eu acho que reflecte bem a edvoção desta personagem que se oferece a conduzir noite fora (com todo o peso simbólico que isto tem nas músicas de Springsteen) para satisfazer uma capricho tão ridículo como comprar uma par de sapatos.
Wreck on the highway - É o fim do álbum e, juntamente, com Stolen Car, a música que dá uma ideia mais clara do rumo que Springsteen tomaria com a edição deo álbum seguinte (Nebraska). Estamos mais uma vez em terrenos country no que diz respeito à letra que relata uma história muito específica para, no fim, fazer zoom-out e se transformar numa reflexão da personagem sobre a sua própria mortalidade. Quando a música parece que vai acabar, entra um inesperado solo de órgão que dilacera mesmo e depois, no fim, a música ainda continua num instrumental frágil mas perpétuo. É uma bela maneira de acabar um álbum. A títulode curiosidade, contém talvez o único erro numa letra de Springsteen em que ele começa a história com "Last night I was..." e começa o último verso com "Sometimes I sit up in the darkness (...) thinkin' 'bout the wreck on the higway". O erro, no entanto, foi corrigido e, ao vivo, Springsteen inicia a música com "One night I was...".
Nota: A análise desta álbum foi feita a pedido do caríssimo e mui estimado samgs conforme pode ser comprovado num dos comentários abaixo. Os posts depressivos continuam dentro de momentos.
The ties that bind - O álbum The River começou por se chamar "The ties that bind" (na altura em que não era duplo) mas, com a inclusão de mais músicas o álbum passou a duplo a mudou de nome. Ainda assim, é revelador o facto de este ter sido um título possivel. Normalmente, as músicas que abrem álbuns do Springsteen, são cuidadosamente escolhidas por forma a estabelecerem logo as regras do jogo. Há aqui ecos de Johnny Cash ("I keep the ends out fr the tie that binds") mas a letra é terreno novo para Springsteen, as relações entre homem e mulher começam agora a aparecer na sua escrita ainda que, talvez de forma não evoluída como sería no futuro. Musicalmente talvez seja dificil de digerir a sonoridade pop do refrão mas, como vamos ver nestes textos, The River foi a oportunidade de Springsteen prestar homenagem a vários estilos musicais que o influenciaram e, se isto é pop, então é pop perfeito. No entanto, a versão que aqui ponho é, a meu ver, muito mais potente e obscura mas é apenas uma versão que mais tarde viria a evoluir para a música que está no álbum.
Sherry darling - Springsteen, enquanto fazia o The River, teve a preocupação de fazer um álbum que tivesse ora músicas profundas e reflexivas ora músicas que lhe permitissem injectar combustivel nos concertos. Esta recai, claramente, na segunda categoria. A letra é ora optimista "let there be sunlight, let there be rain / let the brokenhearted love again" ora pateta "Your momma's yappin' in the backseat / Tell her to push over and movethem big feet" mas nunca muito profunda. Ainda assim, as influências frat rock são evidentes (Bruce a prestar homenagem a este estilo) e é uma das músicas mais divertidas do catálogo de Springsteen.
Jackson cage - Quem me conhece (basta, até, conhecer só o meu e-mail) sabe que esta é uma das minhas preferidas. Musicalmente está muito próxima do anterior "Darkness on the edge of town" e admira-me como foi incluída uma vez que outras músicas dentro do mesmo género (como Restless Nights, por exemplo) foram postas de lado (penso, até, que esse conjunto de músicas tinha dado um álbum magnífico). Ainda assim, ainda bem que, pelo menos esta, acabou por ficar no álbum porque é uma música perfeita. Bem sei que talvez use a palavra demasiadas vezes mas neste caso, para evitar confusões, devo dizer que esta música é mais-que-perfeita. Creio que já me alonguei aqui no blog sobre esta música por isso, desta vez, basta dizer que se desenrola em volta da ideia de uma comunidade fechada que rouba sonhos. O mais interessante na música é a reviravolta no final ""you become the hand that turns the key down in the Jackon cage", ou seja, as pessoas que se sentem fechadas e com todos os caminhos fechados são as mesmas que, anos passados, se tornam parte desse mecanismo e são elas próprias que viram a chave na fechadura e trancam todos os que de lá querem sair.
Two hearts - A segunda música mais punk de Springsteen (a seguir a Held up withouth a gun) e, curiosamente, nas duas, Little Steve aparece com papel preponderante. Pouco mais de dois minutos e meio e, lá no meio, movida a três acordes, a mensagem mais importante do mundo (pelo menos durante aqueles 2:40): "two heart are better than one". Na realidade, a música tem muito mais que se lhe diga do que pode parecer à partida e também já tive ocasião de a explorar por aqui. Em Springsteen faz sentido que ele deixe esta mensagem bem expressa, é que, durante os últimos 10 anos ele só tinha falao na liberdade e na redenção como coisas individuais. Mais tarde, Ryan Adams, utilizou esta metáfora (também ela inspirada na "It takes two" de Marvin Gaye) para dizer "It takes two and it used to take one...". Mais uma para alimentar concertos mas, desta vez, com mais substância.
Independence day - Faz-me sempre lembrar "Racing in the street". Não que a letra seja parecida nem que a música seja parecida, mas apenas porque são raros os momentos na história da música em que uma banda acompanha de forma tão solidária o cantor. Springsteen tenta fazer as pazes com o pai no dia em que tem de sair de casa. É uma despedida agridoce: "So say goodbye it's independence day / Papa now I know the things you wanted but you could not touch / But wont you just say goodbye, it's independence day / I swear I nevr meant to take those things away". Esta, claramente, não é para a festa e é de certeza a música mais adulta de Springsteen até então. As relações conturbadas pai-filho, sempre foram campo fértil para a música rock mas raramente isso foi feito com tanta inteligência e de forma tão complexa e subtil. Para ouvir com a letra à mão.
Hungry heart - O grande hit! É dificil de acreditar mas, inicialmente, foi escrita para os Ramones no entanto, à última da hora, Jon Landau, manager de Springsteen aconselhou-o a ficar com ela. Mereceu, sem dúvida o ordenado mas a música em si não é mais que isso, uma música e isso, em Springsteen, é claramente insuficiente. Letra razoável e música razoável mas nada mais. Em sua defesa, ao vivo, é emocionante cantar o primeiro verso em uníssono com mais 80 000 pessoas e foi, prcisamente por isso que ela foi incluída no álbum.
Out in the street - Mais uma para a categoria "food for show". Desta vez, no entanto, a letra é bem mais substancial que em Hungry heart mas, por outro lado, a música bem menos conseguida. Um dos problemas de fazer música para concertos é que, de facto, são sempre divertidíssimas em concerto mas, depois de algumas audições, cançam e começam a soar demasiado genéricas.
Crush on you - Garage rock. Guitarras eléctricas em overdrive, letra ao estilo da onda Garage Rock dos anos 60 e até um "watchout!". É certo que o refrão e, aliás, toda a músicas não é propriamente profunda mas também não é suposto sê-lo. Para ouvir com o volume bem alto, com espaço suficiente para dançar e portas bem fechadas para poder cantar aos altos berros "I need a quick shot Doc, knock me off my feet, 'Cause I'll be minding my own business walkin' down the street... watchout!".
You can look (but you better not touch) - Muitas músicas foram gravadas para este álbum em formato rockabilly mas, curiosamente, nenhuma sobreviveu. Esta começou com um arranjo rockabilly mais puro e duro mas acabou por ficar assim a meio caminho entre o rock o rckabilly e o pop. Mais "food for show". Arquivar com Crush on you e Sherry darling na categoria, "músicas para dançar e cantar ao altos berros!".
I wanna marry you - Nunca gostei muito desta música até que me apercebi do problema. Um dia, ao ouvir a versão acústica que aqui ponho, apercebi-me de todo o poder desta letra, apercebi-me de que esta não é uma música adolescente de vamos deixar tudo para trás e rumar em direcção ao sol. É, antes, uma música de pessoas que aceitam as pequenas coisas, as coisas imperfeitas como se fossem as mais importantes: "to say I'll make your dreams come true would be wrong / But maybe baby I could help them along". O problema da música está na produção que, embora eu perceba a ideia das teclas (que nos transporta de imediato para o cenário da música), abafa a letra que, numa música como esta, devería ter muito mais importância. Uma guitarra acústica e teclas bem mais discretas tinha sido o indicado.
The river - A faixa-título. Desta vez, inspirado pela música country de Hank Williams que Bruce ouvia compulsivamente por esta altura, Springsteen escreve esta música (líricamente muito próxima do Country) que talvez tenha tornado The river umas das primeiras músicas dentro de um estilo que, mais tarde, viria a ser conhecido como Alt.country. A história é inspirada na vida da irmã de Springsteen e nas vidas que Bruce via acabarem abrupta e precocemente, empurrados por uma economia que esmagava os mais fracos e por uma sociedade que nos quer ver "settled down" o mais rapidamente possivel. Ainda assim, as personagens desta música continuam a ir ao rio que os faz lembrar os sonhos que entretanto morreram ainda que saibam que o rio já secou. É uma história verdadeiramente bem contada e uma música poderosíssima. No vídeo, a primeira vez que a música foi tocada e, talvez a versão mais emocionada. Arrepiante.
The promised land - Esta é outra das clássicas. Este álbum, aliás, está repleto delas. É a responsavel directa pela mudança de que já aqui falei (o facto de este álbum ser para mim, agora, o melhor de todos os tempos). Depois de nos apresentar o cenário mais desoladoramente desesperante, é capaz de nos levantar de repente e fazer-nos acreditar no que quer que seja que queiramos acreditar. Intrumentalmente está construída brilhantemente e é suposto ouvir-se alto, a conduzir em excesso de velocidade, com os vidros abertos, mesmo que sem destino. Não consegui pôr aqui uma versão acústica presenta nas digressões do The Ghost of Tom Joad e do Devils & Dust mas esta serve bem o propósito, quando aquele saxofone entra, é impossivel uma pessoa ficar indiferente a tanta energia.
Factory - Não é original a ideia de retratar a vida de um operário fabril. No entanto, toda aquela música de inspiração industrial pode ter sido muito eficaz no que diz respeito a acalmar sentimentos de culpa de jovens burgueses mas nenhuma retrata com tanta exactidão e forma tão pesada esta vida. Springsteen, por sinal, nunca teve um único emprego senão como músico (excepto, durante algumas semanas como jardineiro), mas não tenta fazer nada panfletário, apenas se baseia na vida do pai retrata de forma brutalmente crua a morte de todos os sonhos. A violência que aparece no fim da música é, talvez, das coisas mais assustadoras que já se puseram numa música: "End of the day, factory wistle cries / Man walk through these gates with death in their eyes / And you'd just beter believe boy / Somebody's gonna get hurt tonight / It's the working, the working, just the workin life". Para ouvir com a letra à mão.
Streets of fire - Simples. Um grito de raiva. "I live now only with strangers / I talk to only strangers / I walk with angels that have no place". O trabalho de guitarra é notável e adiciona décibeis a este berro furioso alternado com sussurros resignados.
Prove it all night - Ao vivo, na digressão de promoção deste álbum , esta música transformou-se neste hino de perto de 10 minutos que aqui ponho. Musicalmente, volta a ser predominante o trabalho de guitarra (ainda mais nesta versão). A intro, com um solo de guitarra em crescendo deixa-nos exaustos ainda antes de começar a música propriamente dita e, quando esta começa, ainda conseguimos encontrar forças para acreditarmos que, se fizermos o que é preciso, mais tarde ou mais cedo acabamos pr ter a nossa recompensa. Para ouvir muito, muito alto: "I've been working real hard, to get my hands clean..."
Darkness on the Edge of Town - Parece estranho mas a música que dá nome ao álbum é, precisamente a última. É que este álbum não podería acabar de outra forma. Springsteen, é sabido (com a excepção do álbum Nebraska), sempre conseguiu inserir alguma esperança e, depois de um álbum que é claramente produto de alguém cansado e desiludido, só se podia acabar com "Some folks are born into a good life / Other folks get it anyway anyhow / Me I lost my money and I lost my wife / But them things don't seem to matter much me now / 'Cause tonight I'll be on that hill 'cause I can't top / I'll be on that hill with everything I've got / Miles on the line where dreams are found a lost / I'll be there on time and I'll pay the cost / For wanting things that can only be found / In a darkness on the edge of town".
Badlands - Começa com um riff fortemente inspirado nos Animals ("Don't let me be misunderstood") e aperebemo-nos rapidamente de que este álbum não é o delírio romântico de Born to Run: "Lights out tonight / trouble in the heartland / Got a head-on collision / smashin' in my guts, man / I'm caught in a cross fire /that I don't understand". Mais tarde, a mensagem é clarificada: "it ain't no sin to be glad you're alive". E logo na primeira música, fica definida a mensagem de todo o álbum. Uma das mais fortes e poderosas músicas no reportório de Springsteen que, ao vivo, com falsos finais, ganha uma dimensão muito maior que em estúdio.
Adam raised a Cain - Abre com com mais distorção na guitarra que a que alguma vez tinha sido utilizada por Springsteen em álbum. As imagens bíblicas (a lembrarem "A Leste do Paraíso" de John Steinbeck) exploram a suma melhor história, a de Abel, Caim e Adão. É uma música sobre aquilo que herdamos dos nossos pais. No fundo é sobre o peso da responsabilidade de seguir as pegadas dos nossos pais, de fazermos o mesmo tipo de vida, de pagarmos e respondermos pelos pecados dos nossos pais: "You're born into this life paying / For the sins of somebody else's past / Daddy worked his whole life for nothing but the pain / Now he walks these empty rooms looking for something to blame / You inherit the sins, you inherit the flames". P.S. - Que solo de guitarra nesta versão!
Something in the night - A única música deste grupo em que não á uma réstia de esperança. Nasce-se sem nada e assim que temos alguma coisa, é-nos retirada, nada é perdoado, tiram-nos as poucas coisas que nos dão alguma esperança e a única coisa de que temos a certeza é que nunca conseguiremos viver os sonhos que correm pela nossa cabeça. É raro Springsteen fazer uma música tão pessimista como esta. Talvez seja essa a razão por que Sprigsteen raramente a toca ao vivo, o que faz com que esta versão de estúdio, crua e frágil, seja insuperada.
Candy's room - Também neste álbum há espaço para uma música de amor, mas em Darkness on the Edge of Town, nada é optimista, nada corre bem. Candy é uma prostituta e o narrador, no meio da alucinante viagem, convence-se de que, apesar de ela ter "men who'll give her anything she wants", no fundo "what she wants is me". A música acaba com o narrador disposto a perder tudo por uma noite e nós, quando ouvimos a música, sabemos que essa noite não significará mais para Candy que qualquer outra noite. Musicalmente, a música segue o ritmo alucinante do narrador e alterna ritmos frenéticos que nos dão a ideia de andar num carro a 150 Km/h sabendo nós de antemão que ele vai embater de frente.
Racing in the street - Springsteen sempre foi conotado com músicas muito "cars and girls". Em sua defesa, ele sempre disse que não faz músicas sobre carros, faz músicas sobre as pessoas dentro dos carros. E, para o provar, aqui está esta obra-prima. Começa com referências automóveis demasiado complicadas para que possam ser percebidas por um leigo: "I got a sixty-nine Chevy with a 396 / Fuelie heads and a Hurst on the floor", mas cedo nos apercebmos que esta magnífica história é muito maior que isso. É, até, maior que a própria vida. É uma história de pessoas que, em vez de morrerem aos poucos, chegam a casa depois de um dia de trabalho e, a única escapatória possivel está numa corrida de carros. O que é inacreditável é a forma como não só simpatizamos como nos pomos no lugar destas pessoas que não hesitaríamos em chamar de marginais. Mais tarde a história evolve e aparece outra personagem que tinha sonos "But all her pretty dreams are torn / She stares off alone into the night / With the eyes of one who hates for just being born". No fim, velhos, a corrida de carros que promete uma réstia de dignidade (já não se espera liberdade) é diferente, é uma corrida que ambas as personagens fazem sozinhas, rumo ao mar na esperança de poderem lavar-se dos seus próprios pecados. Não é dificil adivinharem quais sejam esses pecados, se nos lembrarmos de Badlands em que "there is no sin to be glad you're alive". Os pecados são, portanto, o oposto, os sonhos desfeitos e o desespero de ter de viver. Musicalmente, estamos perante um dos melhores trabalhos de sempre de Springsteen, em perfeita harmonia com a E-Street Band, a definirem a sonoridade que lhes é característica e a ajudarem a contar a história.
21.10.08
Às vezes temo que aquilo de que tenho saudades nunca tenha existido. Outras vezes fico aliviado por aquilo de que tenho saudades nunca ter existido.
Só vi, devo confessar, um filme com Guillaume Depardieu: Pola X (1999) de Leos Carax. Ainda assim, Depardieu (filho de Gérard) foi o protagonista de um dos filmes mais importantes da minha vida. Pola X foi o ponto de viragem, a primeira sessão no King Triplex, o primeiro filme que me abriu horizontes. Podería escrever sobre uma vida torturada (por causa de uma mala qe caíu de um carro, teve um acidente de mota que fez com que fosse operado e, fruto da operação, contraíu um vírus que fez com que, depois de 2 anos de tratamentos dolorosos, amputasse a perna) mas aqui o que interessa e o que me marca mais é que morreu o actor que deu vida a Pièrre, o escritor torturado que foge de uma relação amorosa perfeitamente "normal" fugindo, como consequência inevitável de uma relação quase incestuosa com a mãe apenas para se ver envolvido numa relação plenamente incestuosa com uma irmã que nunca tinha conhecido. O filme retrata a decadência vertiginosa da personagem e de tudo o que o rodeia. E Pièrre, ainda que na mais terrivel das situações, nega os apelos constantes de uma vida normal, confortável e segura em nome de um amor incestuoso e alguma dignidade.
Talvez tivesse começado há mais tempo mas a primeira vez que me apercebi de que algo estava a mudar foi no passado dia 19 de Julho. Estava em Barcelona a ver um concerto do Bruce Springsteen e, uns 15 minutos depois de começar, na 4ª música (uma música que, aliás, ouvi em todos os 4 concertos de Springsteen que já vi). Naquela altura, alguma coisa mudou. Comecei a perceber qualquer coisa que me tinha passado ao lado até então. Era a primeira vez que via um concerto do Springsteen depois de ter começado a trabalhar e as palavras "I've done my best to live the right way / I get up every morning and go to work each day / But your eyes go blind, your blood runs cold / Sometimes I feel so weak I just want to explode" fizeram perfeito sentido naquela altura.
Nesse momento começou um processo que julgo ter acabado esta semana. Acho que o meu álbum preferido já não é o Born to Run mas sim o Darkness on the Edge of Town. Isto, para quem esteja familiarizado com os álbuns, sabe que é um grande acontecimento. Tem implicações muito grandes mas a mais evidente é que estou adulto, estou azedo, estou cínico, mas tenho esperança.
Um destes dias disseco aqui o álbum para me poder alongar sobre a importância desta mudança. Por enquanto, aqui fica a música que começou este processo:
Mantenho apenas uma utopia. Um dia, verei o génio de Bob Dylan a ser reconhecido com um prémio Nobel. Nada mais adequado para o homem que ser premiado amanhã pela academia. Sería, também, uma vitória bem merecida da cultura "popular". E, se não for este ano, teremos sempre o próximo.
"The ghost of electricity howls in the bones of her face"
Se há instituições financeirass em risco de falência e se essa falência implica graves consequências para os sistemas financeiros nacionais (e, por vezes, internacionais), parece-me lógico que os Estados tenham o dever e a obrigação de intervir com dinheiro público por forma a prevenir esta situação. O que também me parece lógico é que, se estas instituições são tão importantes, então o Estado também deve ter o direito a inspeccionar as suas contas e deve ter uma palavra a dizer nas decisões que elas tomam.
Cada vez mais me convenço que a coragem não é senão a cobardia de aceitar sem grande alarido aquilo que, de uma maneira ou de outra, acabará por acontecer e, pela ordem natural das coisas, passar. Nada de muito glorioso, portanto.