
Lembro-me de ter lido algures qualquer coisa sobre o paradoxo que era haver, por um lado, o rock'n'roll e toda a mitologia a ele associada (live fast, die young) e, por outro, termos A banda de rock'n'roll por excelência (os Rolling Stones) ainda a tocar. De qualquer das formas, lá resolveram a questão lembrando os velhos bluesmen que tocavam até morrer e que Jagger, Richards e Companhia não eram senão bluesmen. Não fiquei muito convencido em relação ao caso específico dos Stones mas a ideia ficou.
No Sábado, em Loulé (Festival Med), fui ver aquele que será talvez o último dos grandes bluesmen. É certo que não toca guitarra nem harmónica e as músicas dele não começam com um "woke up this morning". É certo que, musicalmente, tem muito mais de soul, gospel e mesmo rock'n'roll do que blues (embora eles lá estejam). É certo que quando lembra outros grandes companheiros de caminho, fala de Ottis Redding, Sam Cooke, James Brown e até Bo Diddley e, de nomes dos blues, nem um. É certo que não tem propriamente uma imagem rural ou humilde, antes, declara orgulhosamente os incríveis números da sua descendência, senta-se num luxuoso trono, tem pessoas para lhe limparem o suor da testa, para lhe pôr e tirar o casaco, para lhe agarrar nos óculos, para lhe antenderem a todos os desejos. Tudo isto é verdade e, no entanto, repito que vi um dos últimos grandes bluesmen.
Banda pronta, cuidadosamente disposta no minúsculo (para uma banda de 12 elementos) palco: trompete, saxofone, saxofone baixo, bateria, baixo (prodigioso), órgão, piano, dois violinos e duas cantoras. Ao centro, o trono do rei. O baixista dá ordem e a banda entra num ritmo soul desenfreado e a expectativa aumenta. Um ou dois minutos depois, numa cadeira de rodas que heroicamente aguenta os seus 240kg, entra Solomon Burke. O lento processo de passagem da cadeira de rodas para o trono transmite a imagem de um homem debilitado e alguém no público diz: "eles deviam fazer isto longe do público...". Mas não, não deviam fazer "isto" longe do público, mais tarde, Burke explicou que tocaria mundo fora enquanto tivesse vida e, assim que se senta no trono, torna-se, de facto, num rei.
O concerto arranca e Burke usa (e abusa) da extraordinária e competentíssima banda, troca-lhes as voltas, pede bridges fora de tempo, repete versos, repete refrões, acelera, abranda, improvisa, muda de música a meio de outra, pede solos, alarga instrumentais para que os coros possam distribuir rosas pelo público... Solomon Burke, também ele, competentíssimo, dá um concerto como se fosse uma banda de garagem, como se ainda tivesse tudo a provar. O alinhamento está recheado de clássicos soul e rock'n'roll (Burke parece, aliás, particularmente melancólico ao lembrar e honrar aqueles que já morreram e que o deixaram com o pesado fardo de ser o último dos grandes): Sitting on the dock of the bay, Stand by me, I will survive, Spanish Harlem, Only You, What a Wonderful World, Proud Mary, Good Golly Mish Molly, See See Rider, Tutti Fruti, e, claro, Cry to me, Everybody needs somebody to love, Down in the Valley, That's how I got to Memphis, Diamond in your mindm uma explosiva e arrebatadora versão de Don't give up on me entre outras. Ali no meio da festa, Burke chama o público ao palco e tudo se transforma numa única festa e, embora a maior parte das pessoas que ali estavam nunca terem ouvido falar neste homem, toda a gente sabe que está perante um dos maiores de sempre. No fim, à semelhança do início, a banda continua desvairada enquanto, a custo, Burke desce do trono e volta à cadeira de rodas no mesmo lento e penoso processo. Desta vez, já ninguém se queixou porque estava toda a gente a dançar, demasiado ocupada a apreciar aquele momento proporcionado pelo senhor de 240kg que se sentava agora na cadeira de rodas.