13.9.07

Bruce Springsteen (and The E-Street Band) - Magic




Magic era um álbum esperado com algum nervosismo. The Rising tinha marcado o regresso da E-Street Band mas tinha tido um tema muito forte, o 11 de Setembro. Que tipo de álbum lançaria Springsteen sem um tema destes, depois de um álbum a solo e de um álbum folk nos antípodas do seu trabalho com a E-Street Band? Será que a banda ainda estaria apta? E o próprio Springsteen? Ainda conseguiria fazer um álbum de Rock'n'Roll? Little Steven, o guitarrista de Springsteen, afirma que este será o último grande álbum de Rock 'n' Roll, o último antes de ser tudo definitivamente contaminado pela efemeridade de internet, dos iPods, do youtube. Não se será verdade mas uma coisa é certa, depois de ouvir Magic, essa tarefa só pode estar a cargo de uma pessoa, a pessoa que reanimou o Rock'n'Roll nos anos 70 injetando-lhe toda a fúria e esperança que havia perdido, a pessoa que lançou aquele que foi, provavelmente, o primeiro álbum intencionalmente lo-fi (Nebraska) e que acabou por se revelar uma obra-prima, a pessoa que foi, provavelmente, a última mega-estrela dos anos 80 com um álbum absolutamente improvável e que teve a coragem de mudar completamente de rumo logo de seguida, a pessoa que abdicou intencionalmente da fama em nome da integridade.

Há albuns que saem precisamente na altura certa para uma determinada pessoa e que serão sempre, por isso, considerados geniais por ela. Há albuns que saem na altura certa da vida colectiva de todos nós, que surgem como resposta para perguntas que todos fazemos e que são geniais. Há ainda álbuns absolutamente intemporais, daqueles que podem ser constantemente descobertos, que fazem sempre sentido, aqueles que, mais que álbuns, parecem testemunhos de verdade em estado puro e que surgem mais ou menos uma vez por década. Magic, tem um pouco de tudo isto. É verdade que não é um Born to Run, um Darkness on the Edge of Town ou um Nebraska mas, em algumas músicas é tão como esses álbuns. Magic oscila levemente entre o óptimo e o genial, navega na espuma destes dias e é o álbum certo na altura certa.

Musicalmente, a E-Street Band parece ao mesmo tempo uma banda adolescente com o entusiasmo de quem descobre a música e uma banda com a idade que tem na verdade, medindo de forma exacta e perfeita as medidas sonoras e enchendo os espaços de forma que nos fazem acreditar que nenhuma destas músicas poderia ter qualquer outra forma.


Radio nowhere - O single. Deixava prever um álbum de rock'n'roll de acordes simples, produção crua (para os parâmetros da E-Street Band). Um lamento sobre a música como music business e a forma como isso é apenas um reflexo de tudo o resto. Referência a Mistery Train de Elvis Presley. A repetição de uma frase como mantra é já característica e esconde significados mais profundos que aquilo que poderão parecer à primeira vista: "I just want to feel some rhythm" não é uma afirmação do tipo hip-hop "desde que haja música e festa, a vida corre-me bem", é, antes, uma afirmação que exige música tocada, ritmos que permitam às pessoas dançar, ter esperança e, pelo caminho, reflectir. É um género de prefácio ao álbum. As comparações sonoras a "Don't Fear the Reaper" dos Blue Oyster Cult parecem evidentes à primeira audição mas depois tudo isso desaparece e a música emerge pelo seu próprio mérito.

You'll be comin' down - Uma reflexão sobre a idade e uma preocupação que suponho que esteja na cabeça do Sr. Springsteen: a possibilidade de perder a relevância, de começar a debitar clichés. Como é óbvio, nada é deixado ao acaso e a música serve mais como aviso que como lamento. A esperança está lá. E, já agora, o trabalho fantástico do baixista Garry Tallent, também.


Livin' in the future - A música que me custou mais digerir. Em minha defesa, posso dizer que a E-Street Band não lançava uma música assim desde 1984 com Born in the USA. Springsteen ruminando sobre rumores que circularam há uns meses que anunciavam o seu divórcio. A questão é que a letra, cínica, é acompanhada de uma música que faz lembrar o segundo álbum de Springsteen (The Wild, The Innocent and The E Street Shuffle) e a música Tenth Avenue Freez-Out. A E-Street Band em todo o seu esplendor, com direito a solo de Danny Frederici e tudo.


Your own worst enemy - Não posso deixar de pensar que esta música é de um Springsteen pós-terapia, um Springsteen que se depara com a própria imagem e se assusta. A música poderia ter sido retirada do The River. Faz lembrar "Fade away" ou "The Price you pay" enquanto reflexão sobre a queda dos mecanismos que nos permitem ter uma imagem idealizada sobre nós próprios.


Gipsy Biker - Primeira música anti-guerra do álbum. Faz lembrar a genial "Shut out the light" e partilham até uma frase "polished up the chrome". A diferença é que, em "Shut out the light" havia alguém que voltava da guerra e se deparava com um mundo que não funcionava de uma maneira que ele conseguisse lidar. Desta vez, a pessoa que volta, parece não ter voltado e o silêncio é a única forma que as outras pessoas têm de lidar com isso. O silêncio perturbador traduzido nos solos de guitarra dilacerantes. No fim, a imagem de alguém que era tanto e agora conta linhas brancas que o fazem finalmente deixar a guerra mas que não fazem com ele volte d vez.


Girls in their Summer clothes - Parece uma música feel-good. A sonoridade Pet Sounds ajuda. À semelhança de Born in the USA, este arrisca-se a ser mais um álbum mal interpretado. O que parece ser um devaneio superficial de tops e pele à mostra, acaba por ser uma música sobre rejeição. Talvez uma das melhores sobre o tema. Parece que, quando Springsteen não consegue dar a volta à letra de forma que ela tenha um tom optimista, fá-lo na música. Dessa forma, torna-se uma música mais "who cares?".


I'll work for your love - Uma obra-prima. Genial. Foi esta sonoridade que me prendeu a Springsteen, foi esta sensação de peito a rebentar, estas letras de entrega incondicional, letras de amor que fazem realmente sentido. Ao ouvir "I'll work for your love", salta-se, canta-se, abana-se a cabeça, reafirmam-se amores e esperanças. Não há mais ninguém (nem nunca houve) que o conseguisse fazer tão bem. É por isso que a E-Street Band é tão importante, compreendem perfeitamente a intenção das letras e contribuem de forma irrepreensivel para a narrativa. Para ouvir uma e outra e outra e outra vez.


Magic - Não deixa de ser estranho que, as duas músicas que parecem sonoramente mais estranhas à totalidade do álbum sejam, precisamente, o single e a música que lhe dá nome. Musicalmente é Springsteen a experimentar novos caminhos com sucesso, teclas a estabelecer o ambiente, uma guitarra suave, um bandolim no fundo e uma voz que, como no resto do álbum, parece ter ganho nova vida. A música é uma sucessão de metáforas mágicas sobre uma relação em que as partes se magoam cruelmente mas em que, milagrosamente, nenhuma das feridas fica por sarar.


Last to die - Uma história assustada de cenas quotidianas completamente distorcidas pelas inteferências da guerra. A fazer lembrar "Roulette" mas mais madura. Ataca de uma só vez os defensores cegos da guerra e os pacifistas inconsequentes. "Who'll be the last to die for a mistake?" é a pergunta central da música.


Long walk home - A guerra serve de novo de pano de fundo mas, desta vez, não é mais que isso numa história sobre falhanços e esperança. Esta é daquelas músicas que não são maiores que a vida mas que são do seu tamanho exacto. Uma espécie de Thunder Road mais ponderada, menos optimista mas esperançosa. Outra música genial.


Devil's arcade - À semelhança de "I'll work for your love" e "Long walk home", esta é daquelas músicas que nem parecem músicas. Parecem, antes, pedaços de verdade que sempre estiveram perdidos nas profundezas da mente de cada um de nós. Como em todas as músicas assim, a única forma de compreender a sua beleza profunda é ouvi-la.


Terry's song - Uma música de bónus que foi acrescentada à última da hora depois da morte de um grande amigo de Springsteen. Não é nada de muito elaborado, apenas uma das músicas mais emocionais que alguma vez se fez.

5 comentários:

Nuno Miguel disse...

Mais uma excelente crítica! Parabéns Márcio! Também gosto muito do novo álbum de Springsteen. The Boss is Back!

Abraços

Anónimo disse...

Deliciei-me a ler esta crítica. Márcio, parabéns!

Rui Laureano

MDA disse...

Obrigado aos dois mas, de facto, o objecto criticado também ajuda e muito!

Um abraço!

Candido Costa disse...

Os meus parabens pelo excelente texto! Alem de bom, mostras conhecer o Bruce Springsteen de uma forma muita tua...see you up the road!

Luis disse...

Márcio, parabéns... ainda não ouvi, sou daqueles que está à espera, mas vou gostar de certeza, o Boss não tem musicas feias, há é algumas menos optimas que outras, tipo as... mulheres... lol, parabéns, um abraço.