14.6.07

The Wild, The Innocent and the E Street Shuffle



Estávamos em 1973. Bruce Springsteen era um zé ninguém, conhecido apenas no seu Estado-Natal e arredores pelos concertos electrizantes. Nesse mesmo ano tinha lançado o álbum de estreia, "Greetings from Asbury Park, N.J." que passou completamente despercebido. Depois de ter assinado contracto com a maior editora da altura, achou que valia a pena tentar mais uma vez antes de se lançar na tarefa hercúlea de "Born to Run". Anos e anos de concertos tínham-lhe deixado centenas de músicas mas Springsteen decide lançar um álbum com apenas 7. Escolhe-as a dedo. Há quem ache que tinham lá cabido músicas como "Zero and Blind Terry" ou "Thundercrack" mas Springsteen não o achou. Talvez tenha sido o melhor, apesar de serem boas músicas, íam estragar a unidade do álbum, uma preocupação que começava a aparecer e que o levaria a deixar de lado para álbuns posteriores músicas que seríam gravadas por outros artistas dando-lhes oportunidade de chegar ao top 40 de Billboard. Nunca foi essa a preocupação de Springsteen e ainda bem.



The E Street Shuffle

O álbum começa assim. É o último álbum "inocente" de Springsteen. Rock, soul, funk... Uma música de festa sobre o que as pessoas fazem para fugir à rotina. Springsteen voltaria recorrentemente ao tema de forma muito mais sombria mas por enquanto, não era altura para isso. A adolescência ainda não tinha acabado.



4th of July, Asbury Park (Sandy)



As promessas ainda valiam. O tema repete-se mas, desta vez, dá a sensação que Springsteen se está a preparar para escrever Thunder Road, Born to run ou Backstreets. A música mais romântica até à altura. Amores proibidos, planos de fuga, personagens secundárias presas que serviam de referência para tudo que Springsteen não se queria tornar e a promessa de amor eterno "Love me tonight and I promise I'll love you forever". Quem é que será capaz de não acreditar nesta promessa no fim da música? A bateria começa, entra o acordeão e entra-se noutro mundo. Esta música, tal como muitas outras no álbum, é simplesmente perfeita.





Kitty's back



Não chegamos a sair da terra imaginária onde Sandy nos pôs. Um amor perdido volta numa tarde de Verão, com um calor abrasador. Kitty, depois de abandonar o namorado por "some city dude" volta e o namorado não lhe consegue resistir. É uma história de adolescente em toda a sua glória adolescentemente histérica, adolescentemente idealista, adolescentemente romântica. Ao vivo, a música ganha vida e os solos sucessivos ora da secção de sopros ora das teclas, ora de guitarra conseguem fortalecer a sensação de que estamos sentados no capot de um carro abandonado, numa tarde quente de Verão, enquanto assistimos ao desenrolar da história. Perfeita.





Wild Billy's Circus Story



Continuamos no calor do Verão mas agora o cenário é diferente. Os bastidores de um circo onde nada é o que parece. "The runway lies ahead like a great false dawn" é uma das frases fundamentais da música. Como se, para estas pessoas a estrada fosse uma ilusão permanente de início de qualquer coisa que nunca inicia. A música é descritiva, por isso mesmo, é fácil e talvez irrestivel pormo-nos neste cenário belo e aterrador ao mesmo tempo. A frase final ("All aboard, Nebraska's our next stop") é particularmente enigmática na medida em que, a seguir a este álbum começaria a loucura que só voltaria a acalmar com o lançamento do álbum Nebraska.





Incident on 57th Street



A meu ver, a melhor música de Springsteen até à altura. Voltamos a cenário de Sandy mas, desta vez, a inocência já não é tão inocente. Desta vez as personagens são obrigadas a fazer coisas que não querem, coisas que, resultando significam conseguir sair daquela terra, não resultando significam o fim de todos os sonhos. Springsteen constrói a imagem da personagem principal como uma figura frágil que tenta esconder a sua fragilidade com roupas de herói, uma figura que tem tudo a perder mas age como se não tivesse nada, uma personagem à beira da ilegalidade e conseguimos imaginar um dos seus golpes a falhar e a namorada a ficar sozinha para sempre sem nada a não ser a promessa de um amor eterno.





Rosalita (come out tonight)


Festa. A música perfeita para uma festa. Um riff contagiante, energia a transbordar, mudanças de ritmo alucinantes e um refrão que é um convite cuja resposta já se sabe positiva. O resultado da alegria de um grande amor mais um contrato discográfico resulta nisto. Vem comigo que tudo vai resultar. É talvez a melhor música alegre de sempre.



New York City Serenade


Começa com um piano ora violento ora frágil que acalma para dar entrada a uma guitarra acústica que estabelece um ambiente quente (mais uma vez) mas desta vez de uma noite de Verão. A letra é indecifrável mas, tal como nas melhores músicas de Dylan, não precisamos de saber o que quer dizer cada linha para percebermos a música. Dez minutos jazzísticos que nos põem numa esquina nova iorquina numa madrugada quente de Verão onde tudo se dissipa e sobram apenas as notas quentes desta música.

1 comentários:

Joao Rocha disse...

Fico contente em ver alguem fazer uma crítica a este sublime trabalho de springsteen. O primeiro disco que comprei dele, ainda com Born in the USA na cabeça. Na minha opinião é o melhor album de Springsteen, um album a descobrir pelos mais desatentos e obrigatório para quem se afirma fã de springteen.