
Em Abril de 2006 Springsteen editava um álbum composto por músicas folk celebrizadas por Pete Seeger a que chamou "We Shall Overcome - The Seeger Sessions". O álbum era composto por várias músicas centenárias reconstruídas por Springsteen de forma irrepreensível. A 5 de Maio começava a digressão que terminaria em Novembro na Irlanda. Live in Dublin é o documento que permite ter uma ideia de como foi essa digressão. Resulta da recolha de músicas durante os 3 concertos em Dublin antes do final da digressão em Belfast. São 19 músicos em palco a tocar com o coração músicas folk continuando a tradição centenária de pegar em músicas antigas e dar-lhes uma nova vida adaptando-as à contemporaneidade.
01 - Atlantic City - Seria dificil começar melhor. O primeiro single (retirada do álbum Nebraska)a merecer um vídeo (1982) e , curiosamente, uma música nada (mesmo nada!) dada a ser single. Aqui ganha uma vida simultaneamente sombria e festiva. Springsteen reinterpreta uma música como só ele sabe, dando-lhe uma nova roupagem e tornando-a novamente relevante.
02 - Old Dan Tucker - Música nonsense retirada do álbum que deu origem à digressão. Dá para reparar que Springsteen se está a divertir e que se sente musicalmente relevante o que, ouvindo esta música centenária tocada desta forma, é perfeitamente compreensível.
03 - Eyes on the prize - Springsteen troca versos com Marc Anthony Thompson e dá mais espaço aos violinos o que faz com que este espiritual negro utilizado com frequência durante o Movimento pelos Direitos Cívicos ganhe ainda mais profundidade. Os sopros e os coros dão um toque mágico de espiritualidade religiosa. O mais espantoso, ainda assim é a capacidade vocal de Springsteen e a verdade com que canta as músicas ao longo do concerto.
04 - Jesse James - Talvez a melhor música de We Shall Overcome. Aqui começa com um solo de banjo festivo, mais tarde acompanhado pela guitarra de Springsteen. Começa a história de como Jesse James foi cobardemente assassinado e depois entra toda a banda no elogio fúnebre mais festivo que já se ouviu. Solo de violino, solo de acordeão, solo de slide guitar, mais solo de banjo, mais solo de violino, solo da secção de sopros... Não há elemento na banda que não se entregue completamente.
05 - Further on (up the road) - Música retirada do álbum The Rising. Uma das últimas músicas que Johnny Cash tocou fazendo tributo a Springsteen que só foi editado postumamente. Aqui a música está redicalmente da versão garage rock original e da versão trovadoresca de Cash. Uma flauta dá-lhe um toque celta, Marc Anthony Thompson volta a contribuir na vocalização de alguns versos. Aqui a música deixa de ser um "toma-lá-guitarras-eléctricas-e-o-rock-vai-nos-salvar-a-vida" para ser uma promessa comovente de amizade ao estilo de If I should fall behind na Reunion Tour.
06 - O Mary don't you weep - Voltamos à festa. Abram as portas do celeiro, convidem a cidade inteira e dancem como se não houvesse amanhã ao som desta história bíblica.
07 - Erie canal - Outra das grandes músicas de We Shall Overcome. A história da construção de um canal que facilitou transportes na zona de Nova York no início do século XIX. Com a abertura do canal, o transporte feito com carroças puxadas por animais acabou por deixar de fazer sentido. Este é um lamento de uma das pessoas que fazia o transporte com uma carroça puxada por uma mula e que assiste ao desmoronar de toda a sua vida. Danos colaterais da evolução.
08 - If I should fall behind - Talvez a melhor música de amor de Springsteen aqui com um arranjo radicalmente diferente quer da versão original no álbum Lucky Town quer da versão da Reunion Tour documentada no álbum Live in NY. Aqui a música volta a afirmar-se como uma promessa de amor inquebrável ao som de uma valsa pré-nupcial.
09 - My Oklahoma home - Uma música sobre o desalojamento dos Okies depois de sucessivas tempestades de pó e anos de seca agravados com a chegada da Grande Depressão de 1929. A personagem principal perde tudo, os sonhos, a mulher, a casa e ainda assim consegue manter um tom sarcástico. Springsteen consegue um desempenho vocal substancialmente melhor que no álbum e a música ganha um corpo mais vivo que parecia faltar na versão de estúdio. Destaque, no DVD, para Springsteen a empurrar Greg Liszt para a frente do palco quando chega a vez do solo de banjo. Com os solos perfeitos da secção de sopros a música afirma-se como não conseguia na versão de estúdio.
10 - Highway patrolman - Mais uma música do álbum Nebraska e mais uma música que também foi alvo de um cover por Johnny Cash. A melodia não é radicalmente diferente da versão do álbum mas o acompanhamento faz toda a diferença nesta história. Mais comovente que nunca.
11 - Mrs. McGrath - Uma música anti-guerra de origem irlandesa que Springsteen adaptou ao contexto actual. Foi aqui que Dylan foi buscar inspiração para John Brown. Os interlúdios instrumentais enviam-nos para campos de guerra ancestrais e conseguimos assistir a mortes sem fim e a corpos deixados ao abandono no campo de batalha. Mas Springsteen deixa a mensagem bem clara: "All foreign war I do proclaim / live on the blood and a mother's pain / but I'd rather have my son as he used to be / than the king of America and his whole navy".
12 - How can a poor man stand such times and live - Música feita a partir do original de Blind Alfred Reed que Springsteen adaptou para esta digressão tendo como pano de fundo a incompetência criminosa de George W. Bush perante a catástrofe do Furacão Katrina. Springsteen continua a intervir como pode na política norte-americana e, o melhor, é que o faz sempre de modo irrepreensível do ponto de vista artístico.
13 - Jacob's Ladder - Música originalmente gospel aqui transformada de forma a que parece vir directamente de New Orleans como se Springsteen estivesse a dizer "Antes do Katrina, era disto que aquela terra era capaz, este é o meu tributo à herança músical que New Orleans nos deixou". 19 músicos eufóricos põem o palco num caos completo tocando cada um o seu instrumento de acordo com o que sentem que a música precisa a determinado momento.
14 - Long time comin' - Música retirada do álbum Devils and Dust. O acompanhamento é o ídeal para a mensagem "foda-se! já passei por tanta merda e já fiz tanta merda que agora tenho direito a um bocado de glória!".
15 - Open all night - A terceira música aqui presente retirada do álbum Nebraska. Directamente dos anos 20 com direito a doobie doobie wap wap e tudo! Todas as músicas que Springsteen reinterpreta aqui estão substancialmente diferentes mas esta transforma-se numa completamente diferente. Dá vontade de calçar os sapatos de dança e abanar o corpo como se não houvesse amanhã. Perfeita! Com direito a solo de guitarra acústica e tudo como que lembrando-nos que Springsteen ainda sabe o que faz e duelos vocais rapazes / raparigas à Grease. Hey ho Rock 'n' Roll deliver me from nowhere!
16 - Pay me my money down - Ainda Open all night não acabou e Springsteen ataca Pay me my money down como um cão raivoso. A festa continua. Mais solos, mais caos em palco. Springsteen a fazer a festa em palco como só ele sabe.
17 - Growin' up - Música retirada do primeiro álbum de Springsteen (Greetings from Asbury Park, N.J.). Quando Springsteen fazia música rock soul infectada com um vírus jazzesco. Como é que ela faz sentido num contexto folk/country/gospel? Bom... só ouvindo. Não tem a energia histérica do original porque, sinceramente, já não faria grande sentido mas tem a energia de quem olha para trás sem arrependimentos com uma felicidade pacífica e profunda.
18 - When the saints go marching in - Uma música originalmente Gospel mas que acabou por sofrer influências jazz e dixieland. Springsteen aproveita um pouco de cada herança e entrega-nos uma versão calma mas que nos eleva e anima. Troca versos com outros elementos à medida que os instrumentos vão entrando
19 - This little light of mine - Espiritual negro utilizado no Movimento pelos Direitos Cívicos. Aqui a música é uma experiência verdadeiramente religiosa mesmo para quem não tem qualquer tipo de religiosidade. Ponham os braços no ar e abanem-nos, libertem os maus espíritos do corpo e sejam baptizados de novo! Só peca por ser demasiado curta, mais 20 minutos e não parecia demasiado.
20 - American Land - Acaba This little light of mine e a festa continua com uma música que Springsteen compôs para esta digressão. Um hino festivo em homenagem aos imigrantes que construiram os EUA. É agarrar uma caneca, dobrar os braços, abaná-los e dançar entornando cerveja por todo o lado que quando a música é assim ninguém se importa!
21 - Blinded by the light - A música em que passam os créditos. Retirada também do primeiro álbum de Springsteen aqui com um tratamento cigano contangiante. "I was blinded by the light" é compreensivelmente transformada em "we were blinded by the light". Que versão arrebatadora!
Bónus:
Love of the common people - Música de Waylon Jennings. Springsteen a piscar o olho ao reggae. Faz sentido que esteja nas músicas de bónus, ou seja, não encaixava no corpo principal desta gravação mas é relevante enquanto prova da diversidade de estilos musicais que estavam em jogo.
We shall overcome - A música que deu origem a todo o projecto interpretada com um sentimento credível e um acompanhamento musical comovente. Mais uma vez, Springsteen a aproveitar hinos do Movimentos pelos Direitos Cívicos e a adaptá-los aos novos tempos. A forma ideal de terminar este conjunto de canções.
Para abrir o apetite:
American Land
Atlantic City
Further on (up the road)
Growin' up
This little light of mine
4 comentários:
Excelente Márcio! Conseguiste transmitir por palavras tudo o que é possível ver e ouvir neste trabalho do Bruce.
Abraços.
Obrigado!
Ao longo dos meses vou tentar deixar aqui as minhas impressões sobre os trabalhos do Bruce bem como de outras bandas que me chamem a atenção.
Um abraço!
Bem... soberbo a forma como exprimes cada música... Gostei imenso.
Obrigado! É muito simpático da tua parte. Um pouco exagerado... mas simpático!
Um abraço!
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