Um dos melhores álbuns de sempre: Nebraska. Não quero fazer uma crítica ao álbum. Apenas reflectir sobre as razões que o levam a ser considerado por muitos, o melhor álbum de Springsteen. Normalmente é-lhe atribuído esse epíteto por quem não é grande fã do homem e isso é perfeitamente normal uma vez que é uma carta fora do baralho, um álbum diferente de todos os outros. Na altura, a editora de Springsteen não viu o lançamento deste álbum com bons olhos, e com razão, uma vez que não vendeu nada que se parecesse com os números do seu antecessor "The River" nem com os números do álbum que o seguiría "Born in the USA".
Este é talvez o primeiro álbum propositadamente lo-fi, com um ambiente solitário, desesperado, sem possibilidade de vitória, ou seja, um álbum que, contrariamente ao que se tornou imagem de marca de Springsteen, não apresentava saídas, apenas becos sem saída. São dez músicas gravadas numa pequena sala para um gravador rudimentar de 4 pistas, sem grandes arranjos nem a imensidão wall of sound característica do álbum Born to Run. São 10 histórias desesperadas que, para o autor significaram uma reviravolta na medida em que não era possível descrer mais fosse no que fosse. Mais tarde, a música pessimista, sem saída, seria moda e consistiria uma saída fácil para músicos que queriam fazer obras relevantes. Em Nebraska, estas histórias fazem sentido e são relevantes: vêm das entranhas de uma América ressacada da bebedeira dos anos 80 que ainda não tinha passado, uma América ostensiva com Reagan como Presidente. É fácil encontrar muita gente que não goste da sonoridade mais "característica" de Springsteen com banda a todo o gás e, nesse aspecto, este álbum agrada particularmente a essas pessoas na media em que não fazia grande sentido fazer acompanhar estas letras de um som omnipotente (Springsteen fez essa experiência em Born in the USA o que lhe valeu um sucesso até aí sem precedentes mas um dos álbuns mais fracos da sua discografia). É por esta razão que o álbum é tão apreciado por pessoas que, normalmente não gostam muito de Springsteen. Aliás, Born in the USA podería ter sido igualmente genial, basta ouvir a versão acústica de Born in the USA para saber isso mas Springsteen acabou por optar por uma sonoridade sarcástica o que lhe saiu caro uma vez que muito pouca gente entendeu o sarcasmo e até hoje pensam em Springsteen como um redneck patrioteiro.
Para Bruce Springsteen, a pessoa, este álbum marcou um dos pontos mais negativos da sua vida mas para Bruce Springsteen, o músico, todo o desespero que impestava o ar foi destilado nesta brilhante obra.
Post publicado também no Daily Wage.
3 comentários:
o "nebraska" é realmente um grande álbum. e não dúvido que o "born in the usa" também o podesse ter sido... mas a sonoridade escolhida, como dizes, está longe de ser a melhor. eu, que sempre ouvi música com atenção, nunca consegui desligar a letra da "born in the usa" da música e da forma como o refrão parece apontar para a comunhão patriótica das massas... para mim aquilo era mesmo patriotismo exarcebado e o springsteen era mesmo um redneck. bendito o dia em que li a letra... apesar da música continuar fraquinha... ;)
Pois... Faltou-lhe um pouco do que o Hendrix pôs na Star Spangled Banner. Nessa o sarcasmo não escapou a ninguém. Em digressões mais recentes, a Born in the USA tem sido tocada em versões mais baseadas em guitarra eléctrica, mais rock, menos 80's que fazem mais sentido e que são bem mais adequadas à letra.
Uma vez vi um livro (sobre fotografia) intitulado "Bored in The USA".
Acho que era isto que o Bruce queria, realmente, dizer e que naquela altura ninguém quis perceber.
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